A cem dias da Copa, Brasil acumula micos e promessas não cumpridas

Por Pedro Taveira - iG São Paulo |

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Trem-bala Rio-SP, uso de dinheiro público, sumiço de Ricardo Teixeira, desentendimentos com a Fifa... Relembre problemas da organização do Mundial desde a escolha do país como sede

Faltam 100 dias para a Copa do Mundo, e o antes distante 12 de junho de 2014, data da partida de abertura entre Brasil e Croácia, se aproxima rápido. Foi em 30 de outubro de 2007 que o País ganhou da Fifa o direito de sediar o torneio, e não faltaram promessas do COL (Comitê Organizador Local) e do Governo Federal para que essa fosse considerada a “Copa das Copas”. Entre os compromissos estavam a construção de um trem-bala entre Rio de Janeiro e São Paulo e o não uso de dinheiro público.

Mas não foi bem assim. Percalços como atrasos em obras de estádios, mortes de operários e desentendimentos com a Fifa atrapalharam o cronograma, e agora o Brasil corre para que (quase) tudo esteja pronto. É nessa contagem regressiva para o Mundial que o iG Esporte lista uma série das promessas não cumpridas e outros micos acumulados ao longo dos últimos 2.217 dias:

Gazeta Press
Ricardo Teixeira, Lula e Joseph Blatter: promessa de "Copa da iniativa privada"

Copa da iniciativa privada

Em dezembro de 2007, o então ministro do Esporte Orlando Silva prometeu que não haveria “um centavo de dinheiro público para os estádios”. Ricardo Teixeira, na época presidente da CBF, escreveu em artigo ao jornal Folha de S.Paulo dizendo que 2014 seria a "Copa da iniciativa privada".

Porém, de acordo com a CGU (Controladoria-Geral da União), dos R$ 8 bilhões destinados às construções e reformas, somente R$ 820 milhões vêm da iniciativa privada. A Arenas da Amazônia, em Manaus, e a Arena Pantanal, em Cuiabá, são totalmente bancadas com dinheiro público, por exemplo. A Arena Corinthians, em São Paulo, está sendo concebida graças a incentivos fiscais da Prefeitura de São Paulo.

Os principais financiadores das obras são o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) e a Caixa Econômica Federal, que atuam com empréstimos. Mais de R$ 4 bilhões em empréstimos foram assumidos por estas instituições.

Custo das obras dispara

Levantamento técnico feito pela Fifa em 2007, época em que o Brasil foi escolhido como sede, falava em US$ 1,1 bilhão (R$ 2,8 bi) como preço total dos estádios. Hoje, segundo a Matriz de Responsabilidades, documento que registra a movimentação financeira na Copa, a estimativa é de um gasto de R$ 8 bilhões, a maior parte, como explicada acima, de dinheiro público.

“Não se faz Copa com hospitais”

Eduardo Valente/AGP/Gazeta Press
Ex-atacante Ronaldo cometeu gafe em dezembro de 2011: "Não se faz Copa com hospitais"

Em uma das maiores gafes de todo o processo de organização da Copa, o ex-atacante Ronaldo, membro do COL, foi questionado em dezembro de 2011 se não seria melhor destinar para setores como saúde e educação a verba que estava sendo usada na construção de estádios. A resposta não pegou bem: “Está se gastando dinheiro com segurança, saúde, mas sem estádio não se faz Copa. Não se faz Copa com hospital. Tenho certeza de que o governo está dividindo investimentos”.

Trem-bala Rio-São Paulo

Garantido pela então ministra da Casa Civil Dilma Rousseff em 2007, a obra não saiu do papel. Em agosto do ano passado, o Governo Federal adiou pela terceira vez o leilão para concessão do projeto. O argumento foi de que, com as manifestações populares de junho, não era uma boa ideia investir no projeto. A solução, como muitas outras, ficará para depois do Mundial.

Divulgação/www.copa2014.gov.br
Aeroportos não ficarão totalmente prontos a tempo da Copa

Aeroportos inacabados

Principal aeroporto do Brasil e operando acima do limite de sua capacidade, Cumbica irá receber 1.973 voos extras durante a Copa, e seu novo terminal, que deverá ser entregue pouco antes do torneio, será praticamente ineficaz. Isso porque somente 11 das 25 companhias previstas para operar na área irão utilizá-la antes do Mundial. As demais, somente depois. Para preocupar ainda mais, na última semana o local sofreu um apagão de 20 minutos que interrompeu momentaneamente pousos e decolagens, deixando o receio de que algo semelhante, ou pior, aconteça durante o Mundial.

Em Fortaleza, no Ceará, é certo que a reforma do aerporto não ficará pronta a tempo, e será implantado um terminal provisório feito de lona ao custo de R$ 3,5 milhões. Já a situação de Cuiabá é ainda mais delicada por conta do atraso. “Não tem plano B”, disse Wellington Moreira Franco, ministro da Secretaria de Aviação Civil.

Valcke e o "chute no traseiro"

O secretário-geral da Fifa Jérome Valcke se tornou persona non grata no Brasil em março de 2012 depois de dizer que o País merecia um "chute no traseiro" por conta dos atrasos em obras e falhas na organização da Copa. O ministro do Esporte Aldo Rebelo falou que o governo não lidaria mais com Valcke, mas a bronca durou somente poucos dias. O francês acabou perdoado e segue como homem forte da Fifa em assuntos sobre o Mundial.

Por onde anda Ricardo Teixeira?

Getty Images
Investigado por corrupção, Ricardo Teixeira pediu afastamento da CBF há dois anos

Antigo todo poderoso da Copa no Brasil, Ricardo Teixeira prometia ficar no comando da entidade até 2014, quando pretendia lançar candidatura à Fifa. Mas, vendo-se envolvido em denúncias de corrupção, o ex-presidente da CBF renunciou ao cargo dois anos atrás e se mudou para Miami, nos Estados Unidos. Desde então, José Maria Marin virou o número 1 do Mundial. Teixeira não deu as caras novamente.

Morumbi sai, Itaquerão entra

Quando o Brasil foi escolhido como sede da Copa, era certo que o Morumbi seria a casa paulista. Mas uma série de exigências da Fifa quanto à reforma do local, somada ao desgaste no relacionamento entre Ricardo Teixeira, então presidente da CBF, e Juvenal Juvêncio, mandatário do São Paulo, tirou o estádio do Mundial em 2010.

Na época, o Corinthians, liderado por Andrés Sanchez, mantinha boas relações com a entidade que controla o futebol brasileiro. E, antes a favor do Morumbi, o ex-presidente Lula acabou se tornando o padrinho da construção do estádio do Corinthians, em Itaquera. Antes, foi cogitada a criação de uma arena em Pirituba.

Outros grandes estádios da capital, como Pacaembu e Palestra Itália, também foram preteridos pela construção de uma arena nova.

PETER LEONE/FUTURA PRESS
Acidente no estádio do Corinthians matou dois operários em novembro do ano passado

Mortes de operários em obras

Sete operários já morreram nas obras dos estádios da Copa. A Arena Amazônia, em Manaus, apresenta situação mais crítica: quatro mortes. Em maio de 2013, Raimundo Nonato Lima da Costa, de 49 anos, se desequilibrou e caiu de uma altura de cinco metros. Em dezembro do mesmo ano, Marcleudo de Melo Ferreira, 22, caiu de 40 metros, e José Antonio da Silva Nascimento, 49, sofreu um infarto. No início do mês passado, José Martins Pita, 55, sofreu um acidente com um guindaste.

Em São Paulo, a tragédia aconteceu em novembro de 2013. Um guindaste que montava a cobertura do estádio do Corinthians caiu sobre as arquibancadas e matou Fábio Luiz Pereira, 41, e Ronaldo Oliveira dos Santos, 43. Já em Brasília, em junho de 2012, José Afonso de Oliveira Rodrigues, 21, faleceu ao cair de uma altura de 30 metros.

Estádios atrasados e ameaça de exclusão

Metade dos 12 estádios que receberão jogos da Copa está com o cronograma atrasado. O caso mais delicado é o da Arena da Baixada, em Curitiba, ameaçada de exclusão do torneio. A permanência só foi definida pela Fifa há duas semanas.

Em São Paulo, o problema maior se deu por conta do acidente com o guindaste que matou dois operários. Arena das Dunas, em Natal, Beira-Rio, em Porto Alegre, Arena Amazônia, em Manaus, e Arena Pantanal, em Cuiabá, são os outros estádios atrasados.

Somente Belo Horizonte e Fortaleza entregaram suas arenas no prazo estabelecido pela Fifa: dezembro de 2012. Brasília e Rio de Janeiro estiveram na Copa das Confederações no ano passado, mas fizeram menos eventos-testes do que o previsto.

Prefeito de Curitiba "fura" Valcke

Bruno Winckler/iG
Jerome Valcke: polêmica do "chute no traseiro" e cutucadas no prefeito de Curitiba

O workshop realizado pela Fifa há duas semanas em Florianópolis seria usado para o anúncio da permanência ou não de Curitiba como sede da Copa. Não pegou bem para Jérome Valcke, secretário-geral da entidade que rege o futebol mundial, o fato de o prefeito curitibano Gustavo Fruet ter divulgado a notícia em primeira mão.

Fruet e Curitiba receberam cutucadas de Valcke: “Parece que esta será uma não-entrevista coletiva, porque o prefeito já falou sobre isso” e “Agora a obra avançou muito, mas só porque pressionamos”.

“Onde está o fair play?”

Na cerimônia de abertura da Copa das Confederações no ano passado, a presidente Dilma Rousseff foi muito vaiada pelo público ao ser anunciada no estádio de Brasília. O presidente da Fifa, então, intercedeu pela colega e provocou: “Amigos do futebol brasileiro, onde está o respeito? Onde está o fair play?”. Foi a deixa para mais uma saraivada de vaias.

Divulgação/Portal da Copa
Arena Pantanal: forte candidata a elefante branco depois da Copa

Medo de elefantes brancos

De todos os estádios da Copa, os de Manaus e Cuiabá são os mais cotados para virarem “elefantes brancos” depois da competição. E, se antes o discurso era de que isso não aconteceria, agora o presidente da CBF José Maria Marin mostrou preocupação.

“Estamos programando porque o presidente da CBF esteve aqui e nos questionou sobre como faríamos o campeonato estadual, porque, se teremos um bom estádio aqui, de Copa do Mundo, não pode ter um campeonato só com dez times”, disse Luiz Wellington da Silva, presidente da Federação Mato-grossense de Futebol.

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