Sem padrão Fifa, Mundial de Futebol de Rua corre atrás de financiamento coletivo

Por Thiago Rocha - iG São Paulo |

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Evento de cunho social será realizado em São Paulo em julho e busca R$ 60 mil em site para custear viagem de participantes. Ideia é reunir até os descontentes com a Copa no país

Segundo a última versão da Matriz de Responsabilidades, de setembro de 2013, o custo da Copa do Mundo no Brasil será de R$ 25,5 bilhões. Pouco mais de 0,01% desse valor, cerca de R$ 3 milhões, seria suficiente para organizar o Mundial de Futebol de Rua, que reunirá 300 adolescentes e jovens representando 24 países em São Paulo entre 1º e 12 de julho. Mas o torneio, que visa a inclusão social por meio do esporte mais popular do Brasil, não se beneficia do "padrão Fifa", expressão que resume os gastos públicos com estádios no país e se popularizou com manifestações populares contrárias à Copa. Por isso o crowdfunding, modelo de financiamento coletivo via internet, virou alternativa para ajudar no custeio.

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A Cracolândia, no centro de São Paulo, recebeu uma exibição de futebol de rua


Lançada há uma semana, a campanha tenta arrecadar R$ 60 mil para arcar com parte da viagem dos participantes, mas a adesão ainda é pequena - R$ 610 até a noite de quarta-feira. Com o lançamento oficial do torneio, nesta sexta-feira, no Largo da Batata, Zona Oeste de São Paulo, e o engajamento dos envolvidos nas redes sociais, como o rapper Criolo, a esperança é de que as doações aumentem. "Na verdade o financiamento é para repor o fluxo de caixa. As passagens já estão acertadas, nós já assumimos o risco", disse ao iG Esporte o coordenador executivo do Comitê Local de organização do Mundial de Futebol de Rua, Antonio Eleilson Leite. Ele também integra a Ação Educativa, uma organização não governamental ligada à cena cultural da cidade.

Dos pouco mais de R$ 3 milhões do orçamento total, Leite diz ter R$ 2,3 milhões. Boa parte do dinheiro vem do projeto A Chance To Play, custeado pelo Comitê Internacional dos Trabalhadores da Volkswagen. A Prefeitura de São Paulo apoia a competição e cedeu seis unidades dos CEUs (Centros de Artes e Esportes Unificados) para hospedar as delegações. A 33 dias da abertura, os organizadores seguem em busca de patrocinadores. Não estar vinculado à Fifa, inclusive, tem dificultado na hora de selar parcerias.

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A relação com a entidade até existiu, entre 2006 e 2010, quando o Movimiento de Fútbol Callejero, a Fifa do futebol de rua, ajudou a promover a modalidade nas Copas da Alemanha e da África do Sul. Sem a parceria, o grupo toma cuidados para que suas ações não sejam relacionadas à Copa no Brasil, mesmo com a coincidência de datas - a abertura, em 1º de julho, é no mesmo dia de um confronto pelas oitavas de final na Arena Corinthians. "Tem gente que às vezes chama de Copa de Mundial de Rua. Não, nada de Copa... É Mundial de Futebol de Rua. Uma das medidas que tomamos também para evitar problemas foi não traduzir para o inglês (street football) justamente para não confundir com o que a Fifa promove. Tomamos conhecimento que a Fifa comunicou a Prefeitura de São Paulo para se desvincular de qualquer relação com o movimento", contou Antonio Eleilson Leite.

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Ao contrário da Copa, o espírito não é de competição. O objetivo do Mundial é promover inclusão, tanto que os três times de futebol de rua do Brasil serão composto por jovens carentes e moradores de rua. A maioria dos jogos acontecerá no Largo da Batata, que virou um dos pontos de concentração de manifestações populares em São Paulo. Nem a arena, para 750 pessoas, nem o evento serão empecilhos caso grupos queiram ir ao local para protestos. "No Brasil, os projetos envolvendo futebol para jovens estão muito ligados à formação de atletas. Nossa ligação são com os direitos humanos", explicou Leite, citando uma exibição feita com moradores de rua na Cracolândia, região central de São Paulo. "Queremos recuperar a essência do futebol, recuperar a rua como espaço para jogar futebol. Nosso evento pode atrair inclusive os insatisfeitos com a Copa. É uma chance para mostrar que o futebol é para todos", completou. As finais, dia 12 de julho (véspera da decisão da Copa, no Maracanã), serão na Avenida Ipiranga.

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Futebol de rua na Cracolândia

O Mundial usa a metodologia do Fútbol Callejero, criada pelo ex-jogador argentino Fabian Ferraro, que busca entender o futebol como estratégia para gerar processos comunitários de transformação e impulsionar o desenvolvimento de lideranças, e dessa forma estimular princípios como solidariedade, cooperação e inclusão social.

As partidas, divididas em três períodos, nem sempre são decididas com bola rolando. Os times têm seis integrantes e são mistos, com homens e mulheres. No primeiro tempo, as equipes acertam quais serão as regras básicas com a ajuda de um mediador social - não há árbitro. No segundo, ocorre o jogo em si. Na etapa final, os participantes decidem qual será a pontuação. Um gol nascido de uma jogada coletiva, com toque de bola, tende a receber mais valor do que o saído da individualidade, por exemplo. São artifícios para estimular a integração. "A gente diz que não há perdedor no futebol de rua, ninguém sai sem pontos de um jogo. Também não usamos a palavra "contra". Não é um contra o outro, e sim uma partida entre esse e aquele time", explicou Leite.

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Ferraro teve a ideia de criar um método de integração social usando o futebol ao testemunhar uma partida entre gangues rivais em Moreno, na Argentina, pois a única forma de as facções se entenderem era jogando bola. "É um futebol politizado, ligado a causas sociais, usado em periferias como forma de combate ao narcotráfico. O futebol tem esse potencial para mediar conflitos", afirmou o coordenador do Mundial.

Por ser o "berço" do futebol de rua, os times argentinos são apontados como favoritos. Três equipes representarão o Brasil no Mundial: a Unisinos, de São Leopoldo (RS), uma formada por moradores de rua de São Paulo e outra que será uma fusão da Cedeca, que promove oficinas de futebol no bairro de Sapopemba (Zona Leste), com o Movimento dos Meninos de Rua de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo.

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